O Retorno da Felicidade
Prazer era um sujeito muitíssimo popular.
Era muito aclamado, desejado e tinha milhares de fãs.
Todos o queriam por perto a todo instante e dependiam dele para viver. A razão de existir das pessoas estava em ter sua companhia o maior tempo possível, e caso não a tivesse, a meta era conseguir o quanto antes.
Mas o que poucos sabiam era que Prazer trasvestia-se de Felicidade, fazendo com que todo mundo pensasse ser feliz ao tê-lo por perto. Também pudera... Felicidade era desconhecida pela grande maioria - vivia isolada e perdida no mundo.
A pobre Felicidade estava triste. Pois, além de quase ninguém conhecê-la, raros eram aqueles que, sabendo de sua existência, dedicavam-se à sua descoberta.
Mas muitos pensavam que ela era somente um mito, um delírio, uma enganação... Falavam que ela era uma mentira e que o que valia mesmo a pena era a busca do Prazer e a fuga (ou o anestesiar) da temida Dor.
Certa vez, quando Prazer encontrou Felicidade repentinamente, disse a ela com desdém que ninguém a desejaria, pois era muito subjetiva, abstrata e de difícil acesso. Aconselhou-a a se esconder e a viver num mundo místico, onde só os santos pudessem presenciá-la.
Ela recusou-se a ouvi-lo, mas foi exatamente isso que aconteceu...No entanto, não foi a Felicidade que se escondeu de todos, mas as pessoas com sua idolatria ao Prazer que a isolou nos mais recônditos lugares.
Nem mesmo os dedicados religiosos tinham acesso a ela. O máximo que conseguiam era o Prazer provindo do êxtase espiritual; não, a Felicidade Incondicional.
Ela, porém, queria se aproximar do mundo, mas o domínio do Prazer com seus feitiços era o que a impedia.
Até que um dia, uma jovem apática, acostumada com a presença da Dor, e pouco afetada com a presença do Prazer em sua vida, desiste de vez dos dois. Surge, então, um extenso e luminoso caminho à sua frente, no qual ela decide seguir.
Placas, mapas e instruções indicavam que ele o levaria a tal Felicidade. Sem muita escolha, caminha rumo ao desconhecido.
Conforme o seu caminhar, sua visão foi ficando cada vez mais clara e sua sensibilidade mais aguçada - o que a fez muito mais perceptiva. A jovem foi descobrindo quem ela não era, e que a vida dominada pelo Prazer era completamente falsa e sem sentido.
Felicidade, ao sentir sua presença indo em sua direção, adiantou-se a encontrá-la e conhecê-la. Estava entusiasmada em saber que uma pessoa comum finalmente se interessava por ela, assim como bastante admirada pelo seu desapego ao tirano Prazer.
Encontraram-se por breves momentos, mas o suficiente para a moça saber de sua real existência. Dessa vez não havia sido como a um êxtase espiritual, mas simplesmente como a uma Consciência segura de quem era de verdade.
Felicidade, então, lhe disse: "Eu sou você, e isso por si só já é o bastante. Ser o real é ser feliz, independentemente do que lhe aconteça de bom ou ruim das vicissitudes da vida."
Contudo, a jovem ainda precisaria percorrer vários trechos, desvios, vivenciar muitos altos e baixos, muitos vales e montanhas, até Felicidade poder se apresentar de vez.
O Prazer a a Dor ainda a visitavam, mesmo na estrada da Felicidade, mas agora ela os aceitava sem tanto se abalar ou deixar levar por eles.
Cada passo em direção a quem de fato é, a fortalece na certeza do que é ser feliz... E não importa o que o mundo incrédulo lhe diga, pois contra fatos não há argumentos.
Felicidade pôde, então, ficar alegre ao dar-se conta de que pessoas estão acordando e a tirando do "esconderijo" - seu ostracismo induzido.
E o Prazer... esse, se colocando em seu devido lugar, tirando sua máscara, e mostrando sua cara de transitoriedade existencial.
Fim.



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