Inquilinos Ausentes
Durante muitos anos de minha vida,
um inquilino alugou meu coração.
Ele, porém, dos cômodos não cuidava,
e tampouco limpava o chão.
A grama não cortava, as plantas não regava.
Causava rachaduras e no quarto, infiltração.
Com suas contas atrasadas, fui a ele cobrar.
Mas ele não atendia, estando sempre ausente.
Vizinhos, então, o motivo me contaram:
em muitos outros corações ele era residente.
Marinheiro de trocentas viagens,
era morador que nunca se fazia presente.
Eis que um distinto homem perto de mim passou.
Perguntou-me se de ajuda acaso eu precisava.
Disse a ele que o meu coração queria retomar,
tirar de dentro dele tudo o que o inquilino deixava.
Ele logo de pronto se ofereceu a ajudar,
retirando todos os pertences que ali se encontrava.
Contudo, pelo espaço de repente se interessou.
Procurava um coração para poder se abrigar.
Quis ser o novo morador daquela residência,
prometendo com carinho tudo ali cuidar.
Explicou-me que durante bastante tempo na vida
desejava a ele um novo e agradável lar.
Aceitei a oferta e dei as chaves em suas mãos.
Ele logo trouxe a mudança e por lá se acomodou.
Limpou o lugar com muito carinho e cuidado,
e todo o interior do coração ele reformou.
Segura e mais contente com o inquilino fiquei,
mas em questão de dias ele de ideia mudou.
Sem muita explicação disse que ia viajar.
Ao perguntar a ele para onde iria,
disse-me que um novo lugar havia achado
e que a esse local, então, se dirigiria.
Queria saber onde desejava ficar de vez
e em qual coração a morar, enfim, se decidiria.
Meses se passaram e ele não retornou...
Mas suas coisas dentro do coração ficaram.
Quis retirar seus pertences, porém não consegui,
pois eram muitos retratos que na parede se fixaram.
Tranquei, assim, a porta, disposta a não abrir mais.
Reparei maiores rachaduras que nas paredes estavam.
Até que dias depois, chega uma pessoa discretamente.
Seu rosto não mostrava, fazendo-se misterioso.
Contou-me a sua história e toda a sua dor,
abriu-me seu coração de modo amistoso.
Fui entrando nele devagar e com receio,
conhecendo seu interior deveras caloroso.
Vontade senti de morar naquele lindo coração,
de tão acolhida e aconchegada eu fiquei.
Pergunta-me se no meu também poderia morar,
mas por causa do outro inquilino, eu hesitei.
Não soube o que fazer nesse grande impasse:
o outro seus pertences deixou, e esse, o coração eu sei.
Com medo agora estou de conhecer de vez seu rosto,
pois decepção pode vir ao pensar ser alguém
que eu esperava ao meu coração alugado retornar,
e por essa razão não volto atrás nem vou além.
Será que esse coração terei que demolir?
Já que abriga esperanças, mas, morador, ninguém.



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